Passo a Passo: Nossas Estorias

Passo

A CMFD (Mídia Comunitária para o Desenvolvimento) levou a cabo quatro seminários em Moçambique, em Chibuto, Chicualacuala, Machipanda e Mambone. O seminário sobre o impacto das minas nas comunidades afectadas, teve como objectivo dar voz as vítimas das minas, permitindo que elas contassem as suas estórias e experiências, para que o Governo e as ONG’s e as pessoas no geral possam tomar consciência de que apesar da guerra ter acabo, os seus efeitos e consequências continuam a fazer-se sentir até hoje. A CMFD convidou também jornalistas das rádios comunitárias locais, para que eles pudessem posteriormente produzir matérias sobre o assunto.

O processo de participação incluiu o uso de testemunhas orais, num processo conhecido como criação de estórias digitais. Este método ajudou os participantes, que eram ou não letrados, a contarem sobre como as minas tem afectado as suas vidas em suas próprias palavras. Todas estórias foram gravadas em cinco línguas locais. Estas estórias foram transformadas em estórias digitais, uma combinação de áudio e imagens que podem ser de fotografias ou desenhos.

Apesar de ja se ter feito um trabalho extensivo de desminagem em todo o país, a realidade é que ainda é preciso ser feito muito mais para livrar o país de minas por completo. As duas cheias que o país sofreu veio agravar o problema porque as águas das enchentes arrastaram as minas dos locais onde havia conhecimento de existência de mina

Locais onde o seminário decorreu

chibuto3_web

Chibuto - Tivemos aqui sete estórias gravadas em Português e Changana, os temas abordados foram: Crianças e minas, violência de gênero e minas, trauma de militares e impacto de perda de familiares. Estiveram presentes jornalistas da Rádio Moçambique de Xai-Xai.

Chicualacuala - Aqui tivemos 5 estórias todas gravadas em Português e Changana e entrevistas que os jornalistas fizeram aos participantes que abordou os seguintes assuntos: deficiência física, impacto em pequenos negócios (Perda p.ex. de lojas) e perdas de caractér pessoais. Dois jornalistas da Rádio Chicualacuala também estiveram presentes.

Machipanda - Aqui tivemos nove participantes, incluindo um desminador. A língua dominante foi Ximanica. um jornalista da rádio comunitária (Rádio Gesom) esteve presente.

Mambone - Aqui tivemos quinze participantes , as línguas dominantes foram: Ndau, Xitsua e Português. Trabalhamos em colaboração com a Associação dos Jovens e Amigos de Govuro

Clique aqui Clique aqui para ler mais sobre o radio drama Vila Pisa Bem da CMFD sobre minas.

(AJOAGO), que administram a Rádio Save e usamos os seus escritórios para a realização do nosso seminário. Estiveram presentes 2 jornalistas.

No início do seminário os participantes, não estavam a ser completamente abertos, mas a medida que alguns foram contando as suas estórias todos os outros participantes também começaram a abrir-se e a compartilhar. Quase nenhum dos participantes queria escrever ou desenhar, isto porque quase todos não pegavam numa caneta ou Lápis há anos, desde que tinham saído da escola.

 

 

 

 

No início da sessão das fotografias sentiram-se um pouco desconfortáveis, mais depois que os facilitadores explicaram exactamente o objectivo desta sessão todos participantes contribuiram positivamente. Os participantes disseram ter gostado imenso do seminário porque ajudou-lhes a contarem as suas estórias e também estão felizes por poderem ajudar outras comunidades com os mes mos problems e o pais.

 

 

Comentários dos participantes:

‘Gostei da parte em que conto a minha estória, fez-me perceber que nós guardamos as estórias para nós mas o país precisa de ouvi-las.’

‘Senti-me bem a contar a minha estória porque tirei para fora algo que eu queria dizer sobre as minas e seus perigos; também tive a oportunidade de fazer um apelo ao governo.’

‘Foi assustador contar a minha estória porque lembrou-me os momentos díficeis que eu passei na minha vida.’

‘Sinto uma responsabilidade maior agora, porque a minha estória vai contribuir e apoiar outras comunidades com os mesmos problemas.’

‘Gostei de ouvir os outros participantes, que são deficientes a contarem as suas estórias, foi importante para mim.’

‘Aprendi que a partir de uma ou duas perguntas pode-se descobrir toda uma nova estória, aprendi também a tirar fotografias.’

‘Aprendi novas palavras como workshop (seminário), nem sequer sabia o significado dessa palavra; aprendi também que existem diferentes tipos de minas anti-pessoais.’

As estórias cobriram diferentes aspectos:

· Militares/ Serviço militar obrigatório

· Impacto Sócio-Económico

· Crianças e minas

· Guerra e minas

· Deficiência

Dentro das Comunidades

A comunidade nas zonas afectadas, estão em risco todos os dias, por haver locais sem nenhum sinal de perigo de minas e as pessoas passam por esses caminhos inadvertidamente e pisam minas. Outro facto é que embora haja locais devidamente sinalizados com o aviso de perigo de minas, algumas pessoas teimosamente insistem em passar por esses caminhos muitos acabando por pisar uma mina e morrer ou perder algum membro do corpo. Milagrosa Tembe, conta “uma senhora uma vez, a caminho da machamba ignorou um sinal de aviso de perigo de minas pisou uma mina e perdeu um pé.”

As populações nestas zonas tornam-se empobrecidas, e é visível nestas comunidades a falta de condições básicas. Joana José conta, “Mandei o meu filho mais velho a escola na esperança de um dia ele vir a ser alguém e tirar a nossa família da pobreza, mas um dia ele saiu com os amigos e pisaram uma mina, todos morreram.”

Quando quem morre é o ganha pão da família, a mulher sofre porque normalmente elas não trabalham, sendo assim elas passam a ter que sair de casa e percorrer longas distâncias a procura de subsistência para si e a família enquanto que as crianças muitas vezes são obrigadas a deixar de estudar para ajudarem também a sustentar a casa. “Depois do meu pai falecer, eu os meus irmãos e a minha mãe mudamo-nos para uma casa abandonada e o meu irmão mais velho cuidava de nós. Quando o meu irmão faleceu depois de pisar uma mina, eu passei a ser o chefe da família. As minhas irmãs por sua vez tiveram que parar de estudar para ajudar a sustentar a casa.” Conta-nos Dique Meque.

Desafios

Organisar seminários em àreas rurais remotas constituiu um grande desafio. Por exemplo, em Machipanda não havia comunicação por falha no sistema de telecomunicações no país, e a comunicação só se restabeleceu uma semana antes da data prevista para o seminário. Em Chicualacuala só havia energia de noite, apesar de nos ter sido assegurado de que havia energia das 10h ás 14h todos os dias, isto dificultou o uso de laptop. Todos estes problemas resultaram em alguma demora e a necessidade de ser mais criativos na nossa abordagem.

Mãos amigas

A cooperação local foi fantástica. Em cada localidade trabalhamos junto de organizações locais e oficiais do governo que identificaram os participantes e ajudaram na realização dos seminários. Houve muito entusiasmo por parte de todas estas pessoas e também das estações de rádio que ajudaram bastante no decorrer dos seminários. Acreditamos que esta seja uma indicação clara da necessidade de dar as comunidades uma oportunidade contínua de elevar a consciência sobre as minas terrestres.

Produção

A CMFD ja tem produzido os cd’s em áudio (estórias digitais) assim como um guião que foi concebido para locutores de rádio, mas que também poderá ser útil para facilitadores de debates, professores nas escolas e para grupos comunitários na discussão dos efeitos das minas terrestres; o que pode ser feito para se estar alerta e preparado. Os cd’s acompanhados do guião serão entregues a FORCOM para distribuição.

O que foi dito sobre o programa

“Gostaram do programa. É Informativo. Ninguém veio reclamar sobre o programa.” - Carlitos Sabonete locutor da Radio Comunitaria de Namialo.

“É muito importante. Informativo. Interessante para a comunidade. tem grupos de desminagem na comunidade. As pessoas aprendem a importar-se com os caminhos por onde passam graças ao drama.”- Tomé Candeeiro. Locutor da Radio Comunitaria de Alto Molocue

“O programa é bom porque o impacto é real. é informativo e educativo”.- Mário Raúl locutor da Rádio e TV Comunitária Chiúre

"Quando eu tive a oportunidade de sentar ver e ouvir o cd a avaliação minha foi de 100%, foi feito com tempoe tem boas mensagens."- Amos Mataruse (Habit For Humanity)

 

Latest Productions